Fotos em casa: tipos de ensaios fotográficos

Eu quero falar sobre fazer fotos em casa. Mas, antes, uma introdução:

Eu nunca pensei que fosse escrever sobre superpoderes aqui. Mas lá vai.

Meu filho anda na fase dos heróis. Então, sempre temos conversas que giram em torno de poderes que gostaríamos de ter e o que faríamos com eles. Esses dias eu estava tentando responder a pergunta que eu mais ouço/leio, e me ocorreu que eu gostaria de ter aquele poder de fazer as pessoas visualizarem as coisas que estão na minha cabeça. Como é nome disso? Não sei. Mas pensa naquela cena de À Espera de Um Milagre, quando o Coffey pega na mão do Paul e “conta” a história verdadeira pra ele sem dizer uma palavra, como se passasse um filme direto pra cabeça dele – acho que dá pra entender o que eu quero dizer. (e se você não tiver ideia do que eu estou falando, onde você estava em 1999? assista este filme).

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(Não tem nenhum herói que meu filho conheça que faça isso, então eu não sei o nome desse superpoder. Se você souber, me conta?)

Eu queria esse poder pra pegar na mão de cada pessoa que me pergunta como funciona uma sessão de fotos em casa e poder explicar de uma forma visual, e não com um texto gigante.

(ou com vários áudios de WhatsApp mais longos do que eu tenho coragem de escrever aqui, cof, cof).

(Eu poderia dizer também que gostaria de ter um vídeo que me mostrasse trabalhando, mas essa seria uma introdução menos interessante pra esse texto; mas enfim, não tenho o vídeo também).

Então, já que eu não tenho esse superpoder (nem o vídeo), eu decidi escrever um texto gigante.

Mas, pra ele ficar um pouco menos gigante, eu vou quebrá-lo em textos menores. Esta é a primeira parte, e os links para os próximos textos estão lá no final.

Antes de tudo, eu acho importante a gente nivelar uma informação básica, que começa com a primeira resposta que eu dou pra quem me pergunta sobre como é fazer fotos em casa. A resposta é:

depende do tipo de foto.

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Pode reclamar, se quiser, porque eu também reviro os olhos e faço caretas pra respostas que começam com “depende”. Mas é que nesse caso depende mesmo, uai.

Então, pra nivelar, vamos imaginar dois “tipos”, duas abordagens/olhares/estilos de fotografia que podem ser feitas em casa.

  • fotografia lifestyle
  • fotografia documental

Uma pausa pra duas observações importantes aqui: a primeira é que existe ainda a fotografia de estúdio em casa (o fotógrafo leva um estúdio portátil para a casa do cliente). Mas como normalmente esse tipo de fotografia não mostra a casa, e sim um fundo de estúdio, eu não incluí nessa lista. E a segunda observação é que há inúmeras nuances aqui, e as linhas que dividem esses tipos de fotografia às vezes são tênues. Cada fotógrafo trabalha de uma forma e alguns “navegam” entre os estilos durante um ensaio fotográfico.

 

A diferença?

Tanto a fotografia lifestyle como a fotografia documental podem ser feitas usando sua casa como cenário, e ambas rendem imagens que a maioria das pessoas chama de “espontâneas” e “naturais”. Apesar disso, elas são diferentes tanto no resultado estético como na experiência durante a sessão.

Fotos em casa com abordagem lifestyle

Na fotografia lyfestyle, as imagens têm uma espontaneidade controlada e induzida. Normalmente o fotógrafo escolhe os lugares da casa em que as fotos serão feitas e pede para que a família faça alguma coisa ali. Depois de fazer algumas fotos, escolhe outro lugar e repete o processo. “Pedir alguma coisa” pode ser olhar um para o outro, caminhar, regar uma planta. Também pode ser fazer cócegas, jogar uma criança para o alto, abraçar, beijar, sorrir, pular na cama. Cada fotógrafo tem seu estilo de direção, e o resultado é sempre uma combinação disso com o estilo da família.

As imagens de uma sessão lifestyle tem elementos de espontaneidade, mas que foram provocados por um fotógrafo, especificamente para fazer aquelas fotos.

Fotos em casa com abordagem documental

Na fotografia documental, via de regra, não há direção, então a espontaneidade é “crua”. É comum haver uma conversa e o acerto de um roteiro antes de fotografar, mas o fotógrafo não vai escolher o lugar da casa em que vai fotografar, nem pedir para você fazer nada. Ele vai fotografar o que acontecer, no ambiente em que acontecer.

As próximas imagens são de sessões de fotografia documental. Eu só estava lá, acompanhando uma parte de um dia com as famílias, e elas aconteceram. De forma espontânea, sem que eu escolhesse quando e onde – e eu acho que se eu tivesse tentado fazer isso, nem conseguiria.

Como escolher

Eu poderia fazer um quadro com as “vantagens e desvantagens” de cada tipo de fotografia em casa aqui, mas às vezes o que eu vejo como desvantagem pode ser uma vantagem para você. Então, em vez disso, vou tentar traçar um perfil do que normalmente as pessoas buscam.

 

Fotografia lifestyle é para você se:
  • você quer fotos mais “perfeitinhas”, retratos com roupas combinando ou poses parecidas com outras fotos que você viu no Pinterest;
  • você quer fotos em que todos apareçam sorrindo e felizes;
  • sua família não se importa em ser dirigida; e
  • seu motivo para fazer fotos é ter imagens de vocês, todos bonitos e sorridentes, para colocar nos porta-retratos espalhados pela casa.

 

Fotografia documental é para você se:
  • você abraça a imperfeição, não liga para poses e não faz questão de fotos perfeitinhas com roupas combinando;
  • você quer olhar para uma foto daqui 30 anos e lembrar de como era sua vida hoje;
  • sua família não gosta de ser dirigida;
  • você quer que a personalidade de cada membro da sua família apareça nas fotos (mesmo nos momentos de choro ou mau humor);
  • você vê beleza em cenas do cotidiano, mesmo que ele não seja perfeito (nunca é, né?); e
  • seu motivo para fazer fotos é ter imagens da sua vida real (que vão ser suas memórias no futuro), uma herança sobre a história da sua família – e (por que não?) colocá-los nos porta-retratos espalhados pela casa.

Como eu fotografo

Faz um tempo, eu escolhi a abordagem documental – ou ela que me escolheu, eu ainda não sei ao certo. O que eu sei é que eu tentava fazer lifestyle quando comecei a fotografar, mas sempre tinha uma parte dos ensaios que eu deixava correr solta, e adorava “roubar” fotos, e essas eram sempre as melhores. Elas falavam com meu coração de uma forma que as outras não faziam. Demorei um tempo pra entender.

Do jeito que eu vejo hoje, a fotografia documental tem uma camada extra: a memória real, a vida de verdade. Daqui 10 anos, as famílias que eu fotografo vão olhar essas fotos e não vão lembrar só que fizeram uma sessão de fotos em casa. Elas vão ver imagens que vão povoar as memórias delas: o café da manhã que faziam juntos, a brincadeira preferida da época, as personalidades das crianças que já vão estar crescidas.

Isso é lindo de imaginar, e é o que eu escolhi construir com a minha fotografia.

 

O próximo passo

No próximo post eu vou explicar em detalhes como funciona e o que acontece durante as sessões de fotografia documental que eu faço. Se você gostou da ideia e acha que é seu perfil, vem comigo:
 
 

fotógrafa-familia-premiada

Fotografia premiada pela FPJA (Family Photojournalist Association). 2017.